Julho trouxe duas notícias sobre o sistema elétrico português que, lidas em conjunto, dizem algo prático a quem paga uma fatura de empresa. A primeira: a solar foi, pela primeira vez, a maior fonte de produção nacional. A segunda: o momento de maior consumo do verão aconteceu às oito da noite — quando a solar já quase não está lá.

Comecemos pelos números, que são da REN e são públicos.

No primeiro semestre de 2026 o consumo de eletricidade em Portugal atingiu 27.200 GWh, mais 3,5% do que no período homólogo — o valor mais alto de sempre, cerca de 900 GWh acima do máximo anterior. As renováveis abasteceram 71% do consumo no semestre.

Depois veio o calor. A 2 de julho o consumo diário chegou aos 165,6 GWh e no dia seguinte a 171,1 GWh, um novo máximo para meses de verão — o anterior era de 2022. E a ponta, o instante de maior procura, fixou-se em 8.493 MW às 20:00 do dia 2 de julho, acima dos 7.918 MW do verão anterior.

Os máximos absolutos do sistema continuam a ser de inverno. Mas a distância entre o verão e o inverno está a encurtar — e isso muda a forma como se deve olhar para o consumo de uma empresa em agosto.

A solar chegou a primeira. E sai cedo.

Em julho de 2026, e pela primeira vez em Portugal, a produção solar foi a tecnologia dominante: 19% do consumo, à frente da hídrica (16%), da eólica (13%) e da biomassa (5%).

Há aqui duas nuances que valem mais do que o título. A primeira é que isto se refere às fontes de produção nacional: nesse mesmo mês, a maior parcela isolada do consumo veio de energia importada, com 34%. A segunda é que a solar liderou num mês em que produziu abaixo da sua referência histórica — o que diz mais sobre a dimensão que a tecnologia já tem instalada do que sobre o mês em si.

E depois há a questão das horas. A solar produz em forma de sino: sobe de manhã, atinge o pico a meio do dia — este ano chegou aos 3.800 MW a 29 de junho, às 13:30 — e desaparece ao fim da tarde. O pico de consumo do país, esse, foi às 20:00.

Porque é que isto interessa a uma empresa

Porque desenha a hora cara do dia, e a hora cara do dia é a única variável de consumo que uma empresa consegue mesmo mexer sem investir nada.

Ao fim da tarde acontecem duas coisas ao mesmo tempo: a produção solar recua e a procura mantém-se alta, com a climatização ainda a trabalhar e a atividade doméstica a somar-se à empresarial. É a chamada rampa da tarde. Nas horas em que a oferta mais barata sai do sistema e a procura não desce, o preço grossista tende a formar-se acima do resto do dia.

Para quem tem contrato indexado, isso entra diretamente na fatura: o custo é a soma, hora a hora, do consumo pelo preço de mercado dessa hora. Duas empresas com o mesmo consumo mensal e perfis diferentes pagam valores diferentes, com o mesmo contrato.

Para quem tem preços por período horário, o efeito é o mesmo por outra via: o que conta é quantos quilowatts-hora caem em ponta, em cheias e em vazio.

E em 2027 esta lógica fica escrita na tarifa

Não é coincidência que a ERSE tenha decidido, este verão, mudar os períodos horários. A partir de 2027 as horas de ponta deixam de estar repartidas pela manhã e pelo fim do dia e passam a concentrar-se num único bloco: das 18:00 às 22:00. O meio do dia, hoje parcialmente em ponta, passa a horas cheias.

Por outras palavras: a estrutura tarifária vai passar a dizer, em letra de contrato, aquilo que os dados de consumo deste verão já mostram — que o momento crítico do sistema se mudou para o fim do dia. Explicámos essa mudança, hora a hora e setor a setor, aqui.

Uma empresa cujo consumo se concentra entre as 18:00 e as 22:00 vai ter, a partir de 2027, uma fatia maior da sua energia na banda mais cara — sem que uma única cláusula do contrato se altere.

Três coisas que se podem fazer sem investir

Saber onde cai o consumo. Não o total da fatura, mas a repartição real por período. É um dado que existe e que muitas empresas nunca pediram. Sem ele, qualquer decisão sobre horários é adivinhação.

Identificar o que é deslocável. Há cargas que não se mexem — o jantar de um restaurante, o turno de uma fábrica. E há outras que se mexem com uma configuração: ciclos de lavandaria, produção de frio com armazenamento, aquecimento de águas, carregamento de frotas elétricas, bombagem. O meio do dia, com solar em abundância, é hoje a janela mais interessante do dia para essas cargas.

Rever os automatismos. Temporizadores e autómatos programados há anos continuam a disparar às mesmas horas, mesmo depois de as horas caras terem mudado de sítio. É o tipo de custo que não gera alarme nenhum: aparece na fatura, e mais nada.

A hora a que consome está no seu contrato

Não em cláusulas sobre horários, mas na forma como o preço contratado se cruza com o perfil real da instalação. É essa conta que fazemos: lemos a fatura ao detalhe, vemos onde cai efetivamente o consumo, e comparamos o mercado na mesma base — para que a diferença entre propostas seja real e verificável.

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Fontes

REN — «Primeiros seis meses de 2026 com consumo recorde de eletricidade» e «Portugal regista novos máximos de consumo de eletricidade no verão».

REN — «Solar foi a principal fonte de produção de eletricidade pela primeira vez em Portugal» (dados de julho de 2026).

ERSE — decisão sobre a atualização dos períodos horários em Portugal continental.

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