A sociedade britânica que detém a Solara4 — a central fotovoltaica de Alcoutim que nasceu como a maior do país — entrou em processo de insolvência. Entre as causas registadas estão a produção abaixo do previsto, incêndios, um litígio com o empreiteiro e — o fator com mais interesse para quem compra energia — os preços baixos da eletricidade nas horas de sol. A central continua a funcionar e o abastecimento não está em causa. O que esta história mostra é outra coisa: as horas de sol tornaram-se, de forma cada vez mais consistente, as mais baratas do dia — e o contrato da sua empresa é que decide se ela as aproveita.

O que se sabe

A Solara4 nasceu como a maior central fotovoltaica do país: cerca de 220 MW de capacidade, 661.500 módulos ao longo de aproximadamente 320 hectares no concelho de Alcoutim, no Algarve, em operação desde 2021, com uma produção anual prevista na ordem dos 382 GWh.

A sociedade que a detém, a britânica Welink Energy Portugal 2 UK Limited, entrou em processo de insolvência no Reino Unido — o registo é de 11 de junho, e o caso foi noticiado a 24 de agosto pelo Expresso, seguido de vários outros meios.

O relatório dos administradores da insolvência, elaborado pela BDO, descreve uma produção «consistentemente abaixo das previsões iniciais» e um mercado em mudança: o forte crescimento da capacidade solar instalada no mercado ibérico aumentou a oferta nas mesmas horas, empurrando os preços grossistas dessas horas para baixo — por vezes até zero ou valores negativos — com receitas substancialmente abaixo do projetado. Nas palavras do relatório, a Solara4 passou por «uma combinação de desafios operacionais e de mercado» que afetou de forma adversa o desempenho e a geração de caixa.

Pesaram ainda problemas técnicos e incêndios, custos de manutenção acima do previsto e um litígio com o empreiteiro de construção, a CTIEC, que reclama ao grupo WeLink cerca de 20 milhões de euros por dívidas ligadas a projetos solares. Os principais credores identificados são o Investec e o Kommunalkredit Austria, com uma exposição total na ordem dos 64 milhões de euros.

A central não parou: a gestão do ativo passou para a Exus, que estuda a recuperação do desempenho — incluindo armazenamento em baterias e a eventual combinação com produção eólica, esta dependente de decisão da Agência Portuguesa do Ambiente, que emitiu parecer desfavorável à versão inicial do projeto — com vista a uma eventual venda a novos investidores.

Porque é que o sol a mais derruba os preços

No mercado grossista ibérico, o preço da eletricidade forma-se para cada período de quinze minutos — 96 preços por dia, desde outubro de 2025 — pelo encontro entre oferta e procura. Uma central fotovoltaica tem uma característica de base: produz nas mesmas horas que todas as outras centrais fotovoltaicas — é justamente para lhe dar contorno que a nova gestão da Solara4 estuda baterias e eólica. Quando a capacidade solar instalada cresce, a oferta ao meio-dia cresce com ela — e o preço desses períodos cai, nos dias de mais sol por vezes até zero ou abaixo.

Para quem vende, o efeito é o que o relatório da insolvência descreve. A Solara4 é um projeto «merchant»: vende a eletricidade ao preço de mercado, sem tarifa garantida — ao contrário, por exemplo, dos projetos que asseguraram remuneração garantida no leilão solar de 2019. Quando o preço dos períodos em que produz desce, a receita desce com ele, por muito sol que faça.

Para quem compra, o mesmo fenómeno lê-se ao contrário: em boa parte do ano, as horas de sol passaram a ser as mais baratas do dia. A questão é saber se essa diferença chega à fatura da sua empresa — e isso não depende do mercado. Depende do contrato.

O que isto muda na fatura da sua empresa

Num contrato de preço indexado, o preço da energia acompanha o mercado ao longo do dia. Mas nem todos os indexados são iguais: nuns, o preço aplica-se a cada período — e aí conta também quando se consome; noutros, a referência é a média do mercado no período de faturação — e aí conta apenas a descida média. Nos primeiros, as horas baratas do meio-dia entram na fatura desde que o consumo seja medido nesses períodos, o que os contadores inteligentes já permitem na generalidade das instalações; sem essa medição, aplicam-se perfis-tipo e o efeito dilui-se.

Por isso, o indexado tende a compensar em perfis de consumo sobretudo diurnos — produção, escritórios, frio industrial e comercial —, mas é uma conclusão que só o diagrama de carga real confirma, caso a caso; a fatura, por si, raramente o mostra.

Num contrato de preço fixo passa-se o oposto: o preço da energia não mexe durante a vigência, nem para cima nem para baixo. É estabilidade — que tem valor próprio — e significa também que a descida das horas solares não chega à fatura enquanto o contrato durar. Em qualquer modalidade, as tarifas de acesso às redes, fixadas anualmente pela ERSE, e os impostos atualizam-se por fora do preço da energia.

Existem ainda soluções mistas — uma parte do consumo a preço fixo, outra indexada — que repartem o risco entre a estabilidade e a exposição ao mercado, e às quais se aplica a mesma pergunta: que parte do consumo apanha as horas de sol?

Nenhuma das opções é «a certa» para todas as empresas. O indexado expõe às horas historicamente mais caras — o inverno e o fim do dia; o fixo paga a estabilidade com um preço que já incorpora o risco do comercializador. O que a história da Solara4 mostra é um facto já consumado: a diferença entre as horas de sol e as restantes alargou-se, e é a cláusula de preço que determina de que lado dessa diferença a sua empresa está. O que o mercado fará a seguir não se prevê num artigo.

O que fazer com esta notícia

Nada de urgente — a central continua a produzir e não há qualquer efeito no fornecimento. O que justifica atenção é o retrato de mercado que o caso confirma, e as verificações que qualquer empresa pode fazer com o contrato à frente: que tipo de preço tem (fixo, indexado ou misto), qual o perfil horário do seu consumo, e em que data termina o contrato — e com que pré-aviso se renova.

É antes da renovação que estas escolhas se fazem com margem. Escrevemos sobre o que verificar antes da renovação automática e sobre quando vale — e quando não vale — a pena mudar.

Perguntas frequentes

A central de Alcoutim vai deixar de produzir?

Não. A central continua em operação; a insolvência é da sociedade britânica que a detém, não da instalação. A gestão do ativo passou para a Exus, que estuda a recuperação do desempenho — incluindo armazenamento em baterias e a eventual combinação com produção eólica, esta dependente de decisão da Agência Portuguesa do Ambiente, que emitiu parecer desfavorável à versão inicial do projeto — com vista a uma eventual venda a novos investidores.

Porque é que preços baixos são um problema para uma central solar?

Porque uma central fotovoltaica produz nas mesmas horas que todas as outras. Quando a oferta solar dispara ao meio-dia, o preço desses períodos cai no mercado grossista — o relatório da insolvência refere descidas por vezes até zero ou valores negativos. A Solara4 vende ao preço de mercado, sem tarifa garantida, pelo que a receita acompanhou essa queda.

Se as horas de sol estão baratas, a fatura da minha empresa desce?

Depende da cláusula de preço. Num contrato indexado com preço por período, as horas de sol baratas chegam à fatura — com mais efeito em quem consome sobretudo de dia e tem o consumo medido nesses períodos; num indexado à média do mercado, chega apenas a descida média. Num contrato de preço fixo, o preço da energia não muda durante a vigência — nem as horas caras, nem as baratas. Em qualquer modalidade, as tarifas de acesso às redes, fixadas anualmente pela ERSE, e os impostos atualizam-se por fora do preço da energia.

O que devo verificar no contrato da minha empresa?

Quatro coisas: o tipo de preço (fixo, indexado ou misto), o perfil horário do consumo, a data em que o contrato termina e o pré-aviso da renovação. É essa combinação que determina se a sua empresa está posicionada para o mercado que estas notícias descrevem.

O contrato da sua empresa aproveita as horas de sol?

A Energia Empresas analisa gratuitamente a fatura da sua empresa, compara o mercado — preço fixo, indexado e misto — e apresenta o resultado. Somos uma consultora independente: não pertencemos a nenhum comercializador e não cobramos nada à empresa analisada. Se o contrato atual já for competitivo, é isso que dizemos.

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Fontes

pv magazine, 25 de agosto de 2026 — capacidade, dimensão e produção prevista da Solara4; registo da insolvência no Reino Unido a 11 de junho; credores e montantes; reclamação da CTIEC ao grupo WeLink; transferência da gestão para a Exus e planos para o ativo.

Jornal Económico, 24 de agosto de 2026 — conclusões do relatório da BDO, incluindo a produção abaixo das previsões e os preços grossistas por vezes «a zero ou valores negativos», citando a notícia original do Expresso.

Observador, 24 de agosto de 2026 — insolvência da detentora, queda de receitas, incêndios e procura de comprador.

Euronews, 24 de agosto de 2026 — enquadramento internacional; parecer desfavorável da Agência Portuguesa do Ambiente à hibridização eólica.

OMIE/SDAC, outubro de 2025 — passagem do mercado diário europeu ao período de negociação de 15 minutos.

DGEG — Leilão Solar 2019 — modalidades de remuneração atribuídas.

Expresso, 24 de agosto de 2026 — notícia original (edição para assinantes).

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